Palácio Capanema, um marco estético mundial

EUCANAÃ FERRAZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

RESUMO Projeto de Lucio Costa, Niemeyer, Reidy e Burle Marx, com base em idéias de Le Corbusier, o Palácio Capanema, no Rio, inaugurou modernismo arquitetônico no país e propiciou notável cruzamento entre arquitetura, artes e literatura. Livro de Roberto Segre conta história do edifício, que aguarda conclusão de restauro.

*

Depois de passar por Buenos Aires, Montevidéu e Assunção, em 1929, Le Corbusier (1887-1965) chegou ao Brasil para realizar uma série de conferências em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Mário de Andrade registrou o fato em crônica no “Diário Nacional”, de 21 de novembro de 1929, deplorando que tivéssemos encomendado ao arquiteto “palavras” e não “obras”, observando ainda que faltava à arquitetura moderna um grande edifício –com exceção da “tão ignorada Bauhaus, de Gropius”– que a tornasse definitiva “na consciência social”.1

Mário de Andrade estava certo. Mas sua conclusão imediata –“não será a velha América do Sul que tome uma iniciativa dessas”– seria surpreendentemente desmentida pela construção do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, marco mundial da estética de Le Corbusier e da arquitetura racionalista.

O engano de Mário é explicável: ele não poderia antever as mudanças político-econômicas e socioculturais que viriam com a Revolução de 1930, o que tornaria possível o retorno de Le Corbusier, seis anos depois, para trabalhar exatamente no projeto do edifício que faltava à arquitetura moderna.

GETÚLIO

As várias medidas modernizadoras do governo de Getúlio Vargas abrangeriam tanto a criação de novos ministérios quanto a elaboração de símbolos capazes de representá-los. O recurso à edificação como monumento seguiria uma tradição que se confunde com a própria história da arquitetura.

Assim, em julho de 1935, por iniciativa de Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde Pública, o governo federal promoveu um concurso de anteprojetos para a construção do edifício-sede da pasta. Do total de 34 inscritos, somente três arquitetos, de linhagem academicista, foram classificados.

Carla Caffé
Desenho de Carla Caffé para a edição de 28 de abril da "Ilustríssima"
Desenho de Carla Caffé para a edição de 28 de abril da “Ilustríssima”

O trabalho vencedor era decididamente acadêmico. Seu autor, Arquimedes Memória, era um arquiteto de grande prestígio, que projetara edifícios importantes, como o Museu Histórico Nacional, em 1922, em estilo neocolonial, tão em voga naquele momento. Agora, para a sede do ministério de Capanema, seguira um nova inspiração nacionalista, mais “moderna”, em que a monumentalidade complementava-se com uma estilização de gosto marajoara.

Capanema, entretanto, desejava outra imagem para seu ministério. Assim, valendo-se de um dispositivo previsto no edital do concurso, decidiu desconsiderar o resultado e não levou a cabo a proposta vencedora. Para realizar um novo projeto, convidou, em março de 1936, Lucio Costa, nome ligado à arquitetura e à arte modernas. Ironicamente, fora Arquimedes Memória que, unido a outros professores tradicionalistas, conseguira sua expulsão do cargo de diretor da Escola Nacional de Belas Artes em 1931, interrompendo seu processo de modernização.

Foi justo após essa malograda iniciativa que Lucio Costa passou a se dedicar, com amigos, ao estudo intensivo da arquitetura moderna, destacando-se –entre trabalhos de mestres como Gropius e Mies van der Rohe– a doutrina e a obra de Le Corbusier. Estas eram apreciadas minuciosa e apaixonadamente, “encaradas já então, não mais como um exemplo entre outros, mas como o Livro Sagrado da Arquitetura”.2

Costa formou uma comissão que contava, inicialmente, com outros dois profissionais que, como ele, haviam sido preteridos no concurso: Carlos Leão e Affonso Eduardo Reidy. Aos poucos, juntaram-se a eles Jorge Machado Moreira, Ernani Vasconcelos e Oscar Niemeyer, este último apenas um jovem com grande talento para o desenho. Após um projeto considerado por todos insatisfatório, decidiram, considerando a importância da obra, trazer Le Corbusier de volta ao Rio, agora como arquiteto consultor.

É compreensível que, alguns anos antes, a ambição cultural de Mário de Andrade desejasse “obras” e não “palavras”, mas também é certo que a pregação corbusiana era sempre impactante. Expressões como “máquina de morar”, criada para definir o modelo desejável para a habitação moderna, circulavam com escândalo pelo mundo e geravam grande interesse. Além de arquiteto e pintor, Le Corbusier era teórico, crítico, e suas palavras eram mais conhecidas que seus projetos e edifícios.

Sua “ação” compunha-se, portanto, de “uma soma de palavras, desenhos, ideias, edifícios, pinturas, guarda-roupa –os óculos, a gravata–, atitudes, frases, gestos, num exemplo acabado do mais intrépido espírito vanguardista”.4

A carta-convite enviada por Lucio Costa a Le Corbusier deixa ver o impacto da palavra corbusiana: “Durante sua visita ao Rio, em 1929, fui ouvir sua conferência: ela estava na metade, a sala cheia –cinco minutos mais tarde eu saía escandalizado, sinceramente convencido de ter conhecido um ‘cabotino'”.

Logo adiante, Costa fala brevemente de sua ida para a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) e emenda: “Nesse meio-tempo, entretanto, uma mudança profunda se produzira –de ‘tradicionalista’ que eu era, no sentido equívoco da palavra, havia podido pouco a pouco vencer a repugnância que seus livros me inspiravam e de repente, como uma revelação, toda a comovente beleza de seu espírito me ofuscou. Em ‘estado de graça’ e com a fé intransigente dos recém-convertidos, procurei ‘salvar’ os jovens da Escola! Nove meses mais tarde –o que é bastante normal, pois se tratava de uma expulsão– põem-me na rua, cobrindo-me de palavras grosseiras.”

Agora, mais que reformar o ensino na ENBA, Lucio Costa iria comandar a modernização da arquitetura brasileira.

BEIRA-MAR

Convite aceito, Le Corbusier desembarcou no Rio de Janeiro em 12 de julho de 1936.

Propôs, de imediato, que trocassem a área destinada à construção –na esplanada do Castelo– por outro, à beira-mar, na antiga praia de Santa Luzia. 3 Em seguida, tomando por base o programa adotado pela equipe brasileira, mas rejeitando a dura volumetria simétrica da composição inicial, desenhou, para o novo terreno, um edifício predominantemente horizontal, com uma só lâmina sobre pilotis (colunas que formam um pavimento livre de paredes).

Marcel Gautherot/Acervo IMS
Foto do Palácio Capanema, no Rio, de Marcel Gautherot
Foto do Palácio Capanema, no Rio, de Marcel Gautherot

Como não pôde ser levada a cabo a mudança sugerida, Le Corbusier elaborou um segundo estudo, destinado à quadra que lhe fora proposta de início, no Castelo. Partindo do Rio em 14 de agosto, deixou o “risco original”, a partir do qual a equipe conceberia e desenvolveria o projeto definitivo.

Se o projeto final seguiu, de fato, os princípios norteadores da proposta do mestre franco-suíço, também apresentava consideráveis modificações de partido, funcionamento e concepção plástica. A principal mudança foi a adoção da verticalidade no bloco principal, deslocado agora para um ponto mais central do terreno. Com isso, e a adoção dos pilotis –que passaram de quatro a dez metros de altura–, ganhou-se uma vasta esplanada e continuidade entre os lados do edifício.

Numa das fachadas, recorreu-se aos “brise-soleil”, solução criada por Le Corbusier poucos anos antes, mas, em vez de fixos, tornaram-se móveis, com o que se podia sujeitar a luz solar. Criou-se uma entrada lateral, destituída de qualquer ênfase, mantendo-se, apesar disso, a monumentalidade necessária. O que ressalta, no conjunto, é a leveza, a sintaxe harmoniosa dos volumes limpos e puros.

Do ponto de vista da crítica de arquitetura, uma das melhores abordagens do edifício coube a Yves Bruand, em seu conhecido “Arquitetura Contemporânea no Brasil” (1973, publicado no Brasil desde 1981, pela editora Perspectiva). O autor julga, com absoluta clareza, que as mudanças efetuadas pela equipe brasileira, sem deixarem de ter por base o plano de Le Corbusier, criaram um projeto inteiramente novo.

Além do corte com a estética dos prédios institucionais, graves e pesados, o interior também guardava uma série de novidades, como as divisórias móveis e baixas, a iluminação natural e o mobiliário moderno, desenhado especialmente para o local. A visão do edifício surgindo livre no pátio, o passeio dilatado sob os pilotis, o trabalho em ambientes arejados, tão simples quanto elegante, cada detalhe instituía uma mudança de hábitos mentais e físicos, instigados pela imaginação e pela beleza.

É o que transparece, por exemplo, em uma página do diário do chefe de gabinete do ministro Capanema –Carlos Drummond de Andrade–, que assim descreveu sua chegada ao novo escritório:

“1944. Abril, 22 — […] Dias de adaptação à luz intensa, natural, que substitui as lâmpadas acesas durante o dia; às divisões baixas de madeira, em lugar de paredes; aos móveis padronizados (antes, obedeciam à fantasia dos diretores ou ao acaso dos fornecimentos). Novos hábitos são ensaiados. Da falta de conforto durante anos devemos passar a condições ideais de trabalho. [O poeta] Abgar Renault resmunga discretamente: ‘Prefiro o antigo”¦’ [“¦]

“Das amplas vidraças do 10° andar descortina-se a baía vencendo a massa cinzenta dos edifícios. Lá embaixo, no jardim suspenso do Ministério, a estátua de mulher nua de Celso Antônio, reclinada, conserva entre o ventre e as coxas um pouco da água da última chuva, que os passarinhos vêm beber, e é uma graça a conversão do sexo de granito em fonte natural. Utilidade imprevista das obras de arte.” 5

Mas seria outro o poeta que dedicaria ao MES um poema-homenagem. Vinicius de Moraes, em “Azul e branco” –publicado no jornal carioca “A Manhã”, em 6 de dezembro de 19426–, buscou mais que descrever o edifício, antes buscando para a escrita as qualidades sintáticas da construção, interpretadas como aliança entre visualidade e musicalidade:

Massas geométricas
Em pautas de música
Plástica e silêncio
Do espaço criado.

Além de o edifício –seus volumes limpos e a clara articulação de seus corpos transversos– ressurgir no poema como uma arquitetura musical, outro aspecto, tão marcante quanto sutil, ganha destaque ali, e que poderíamos livremente chamar de plasticidade aquática. Ou, ainda, penso que podemos surpreender no edifício uma espécie de caráter solar e salino.

A ambiência urbana criada pelo edifício, seu pátio, suas ilhas verdes –projetadas por Burle Marx– com coqueiros e outras espécies tropicais, seus pilotis, a transparência dos vidros, a rítmica dos brises, enfim, sua leveza e simplicidade, tudo empresta ao caos urbano uma atmosfera decididamente marinha (o mar podia ser visto de suas janelas antes do adensamento do entorno). Voltemos ao poema:

Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma
Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.

O verso que abre a estrofe recupera uma presença decisiva para o plasticidade aquática do prédio: os três painéis de azulejos desenhados por Candido Portinari para o térreo. Retornando à azulejaria tradicional, em que sobressaem as composições em azul e branco, o pintor realizou um de seus mais belos trabalhos, em que vemos formas ameboides, peixes, estrelas-do-mar, conchas, sereias, cavalos-marinhos e corpos abstratos que sugerem nuvens e algas ou uma lua em quarto crescente.

O rigor construtivo de Vinicius para recriar o edifício no poema pode ser medido na carta que enviou a Manuel Bandeira, de Los Angeles, em 14 de junho de 1949. Ele pede ao amigo:

“No poema ‘Azul e Branco’, reconta por favor o número de andares do Ministério, correspondentes aos versos ‘Azul e Branco’. As linhas iniciais da 3ª parte: ‘Azul… Azul…’ correspondem aos reservatórios no topo. Em seguida vêm os andares, se não me engano 14.”6

A passagem referida por Vinicius é a seguinte:

Azul… Azul…

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha…
e cavalo-marinho.

Nos versos, a dominância das cores dos azulejos reflete perfeitamente o cromatismo do pátio; repetição e sobreposição sugerem visualmente a verticalidade do edifício e, por fim, a economia restritiva de todo o arranjo recupera a linguagem dos painéis, nos quais a tendência sinfônica de Portinari recua à música de câmara.

Mas não são apenas as cores e a temática que fazem dos azulejos elementos decisivos para o que chamei de plasticidade aquática. Há, na textura e no brilho, uma qualidade que remete aos corais, às algas, às conchas, à cintilação das escamas dos peixes, ao reflexo do sol nas águas. Os painéis como que umedecem as pedras do pátio varrido pelo vento.

CONSTRUÇÃO

A história da construção do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde –que passou a se chamar Palácio Gustavo Capanema– é bastante conhecida. Pelo seu valor histórico e artístico e por ser um marco divisório na história da arquitetura no Brasil, a obra tornou-se uma referência inevitável. Curiosamente, no entanto, a importância do prédio acabou por empurrá-lo para uma espécie de região ideal em que objetos sublimes descansam intocados.

Tenhamos em vista a excepcionalidade da obra e estranharemos de imediato que apenas um livro, “Colunas da Educação” (Minc/Iphan; FGV/CPDOC, 1996) –hoje uma raridade bibliográfica–, organizado por Maurício Lissovsky e Paulo Sérgio Moraes de Sá, tenha se dedicado integralmente a ele. Transcreve-se ali um impressionante número de documentos de natureza vária, que, encadeados cronologicamente, remontam a gênese e o processo de construção do edifício, que duraria até 1945.

Vale observar que seu texto de abertura –“O novo em construção: o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde e a disputa do espaço arquiteturável no anos 30”– foi publicado pela primeira vez em 1986, numa revista da Universidade Federal Fluminense (“Revista do Rio de Janeiro”, nº 3), tornando-se de imediato a leitura mais completa das relações entre política e estética em torno do MES.

Mas se o volume deixara abertos terrenos generosos para interpretações, estas nunca vieram à luz na forma de um livro senão agora, quando se publica “Ministério da Educação e Saúde: Ícone Urbano da Modernidade Carioca” [Romano Guerra Editora, 544 págs., R$ 160],de Roberto Segre.

Marcel Gautherot/Acervo IMS
Foto do Palácio Capanema, no Rio, de Marcel Gautherot
Foto do Palácio Capanema, no Rio, de Marcel Gautherot

O autor esquadrinha as condições históricas, culturais e políticas que tornaram possível uma obra tão excepcional e faz uma densa apreciação crítica propriamente arquitetônica, sem esquecer, nesta, sua dimensão estética e simbólica. A densidade e a abrangência do livro de Segre só poderiam ser possíveis porque nasceram de uma “paixão”, segundo o próprio autor, cuja origem remonta a pelo menos 50 anos atrás.

Foi na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Buenos Aires que o jovem milanês –viera para a Argentina com a família em 1939, fugindo do fascismo e do antissemitismo de Mussolini– descobriu a obra de Le Corbusier. Na “Oeuvre Complète”, impressionou-se com o prédio do MES, apresentado ali como um projeto do autor da Villa Savoye, apenas com a colaboração da equipe brasileira.

Em 1963, numa viagem de um mês pelo Brasil, Segre tomou contato, em São Paulo, com as obras de Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha, e, no Rio, visitou Oscar Niemeyer na Casa das Canoas. Foi quando esteve no MES –“totalmente inesquecível já na primeira experiência direta”, como recorda Segre no texto que abre seu livro.

O volume deixa ver o esforço de uma vida inteira. E, lamentavelmente, tal afirmação é também literal, já que Segre morreu em 10 de março, semanas antes de ver seu livro publicado, vítima de atropelamento em Niterói (RJ), condenado, portanto, pela estupidez urbana que os arquitetos –mas também os artistas, pensadores e intelectuais que reconhecem o destino urbanístico de toda ação empreendida nas cidades– aspiram poder controlar com suas obras.

O edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde é um dos nossos mais belos e poderosos sonhos.

Notas
1. “Táxi e Crônicas no Diário Nacional”, org. Telê Porto Ancona Lopez. Duas Cidades/SCCT, 1976, pp. 161-162.
2. Lucio Costa, “Sobre Arquitetura”, 1° vol. Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, 1962, p. 192-193.
3. A área originara-se do aterro de parte da baía com o entulho do desmonte do Morro de Santo Antônio. Décadas mais tarde, próximo dali, seria construído o Museu de Arte Moderna (1954-1967), projeto de Affonso Eduardo Reidy.
4. Eucanaã Ferraz, “Le Corbusier: Palavras, Obras — Ação!”, in “Nenhum Brasil Existe” (Topbooks, 2003, org. João Cezar de Castro Rocha).
5. Carlos Drummond de Andrade, “O Observador no Escritório: Páginas de Diário” (Record, 1985), p. 13.
6. O poema foi recolhido em 1946 no livro “Poemas, Sonetos e Baladas”.
7. Carta inédita, depositada no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Fonte: Folha de S.Paulo

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