Obras de Bharti Kher são testemunho sobre a condição feminina na Índia

Artista indiana é hoje uma das mais badaladas da cena internacional

by Harpersbazaar

A artista plástica Barthi Kher – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

A artista plástica Barthi Kher – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

Por Juliana Monachesi

Parte de um ritual religioso ou acessório fashion? Os bindis – adornos usados no meio da testa pela imensa maioria das mulheres indianas – se situam entre a tradição milenar da Índia e o clichê contemporâneo. E são, como tal, incorporados no trabalho da artista Bharti Kher, que converteu esse símbolo da feminilidade utilizado originalmente apenas por mulheres casadas, para evocar fertilidade e iluminação, em dispositivo visual.

De acordo com o crítico de arte S. Kalidas, por meio dos bindis, ela reinventa tanto referências da arte ocidental, como a op art, quanto as tradições tântrica e neotântrica hindus. E não para aí. Ela está reinventando o estereótipo feminino, defende Kalidas em ensaio para o livro Bharti Kher, Blind, EyesOpen que a Galerie Emmanuel Perrotin acaba de publicar sobre a artista.

Obra Reveal the Secrets That You Seek (2011), espelhos com bindis pretos colados – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

Obra Reveal the Secrets That You Seek (2011), espelhos com bindis pretos colados – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

 

Nas mãos desta inglesa filha de indianos, as bolinhas coloridas se tornam partículas de imensas formas geométricas ou pulsantes mandalas em expansão nos painéis bidimensionais que funcionam como pinturas. Os bindis também se tornam fragmentos de uma camuflagem que recobre suas esculturas: cadeiras e escadas retrabalhadas e formas humanas ou animais em tamanho natural de resina ou fibra de vidro.

Kher é conhecida por transformar outros fatos em metáforas poéticas: por exemplo, 100 mil mulheres morrem anualmente na Índia em decorrência de problemas na gravidez ou no parto, segundo um relatório sobre direitos humanos da ONU. Na série intitulada Contents (2010), a artista utilizou seus bindis em formato de esperma para recobrir manuais médicos do século 19 contendo explicações sobre tipos de gravidez e partos.

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A pintura Utopia, de 2009 – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar

Nascida em Londres, Kher fixou residência definitiva em Nova Délhi alguns anos após o casamento com o também (celebrado) artista Subodh Gupta. O trabalho que a levou à fama na cena londrina foi The Skin Speaks a Language Not Its Own (2006), escultura que representa um elefante em tamanho real com bindis prateados. Vendida por US$ 1,5 milhão pela Sotheby’s, em 2010, é considerada sua obra mais importante.

Mas é nos objetos domésticos que a artista elege – como cadeiras, espelhos, escadas ou penteadeiras – e recobre de bindis coloridos que reside a maior assertiva subliminarmente feminista de sua produção. Na série Leave Your Smell (2011), Kher dispõe sobre escadas antigas outro ícone da feminilidade indiana: saris. Em vez de surgirem como aqueles vaporosos tecidos delicados que a palavra evoca, os saris – banhados em resina – apresentam-se rígidos e evocam posturas desconfortáveis. Poderoso comentário sobre o que é ser mulher na Índia hoje.

Fonte: BAZAAR Brasil

 

 

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