O realismo cru do pintor britânico Lucian Freud ganha primeira exposição no Brasil

O pintor em foto do amigo e assistente David Dawson; “Lucian Freud — Rostos e corpos” terá 28 imagens do artista David Dawson / Divulgação

O pintor em foto do amigo e assistente David Dawson; “Lucian Freud — Rostos e corpos” terá 28 imagens do artista David Dawson / Divulgação

RIO – “Para mim, a melhor viagem que alguém pode fazer é a interior.” Assim falou o artista alemão naturalizado britânico Lucian Freud. Fascinado por pintar rostos e corpos, ele mostrou como poucos a realidade a olhos nus. Um realismo de causar desconforto. Para muitos críticos, ele foi o maior retratista do século XX e teria levado a arte figurativa a um patamar jamais visto. Morto em 2011, aos 88 anos, ele terá sua obra exposta pela primeira vez no Brasil. “Lucian Freud — Corpos e rostos” será aberta no dia 27 de junho no Museu de Arte de São Paulo (Masp), e deve vir em novembro para o Paço Imperial, no Rio.

A exposição no Masp vai reunir 78 obras, por oito salas — serão seis óleos, 44 gravuras e 28 fotos tiradas em seu ateliê por David Dawson, seu assistente por 20 anos, amigo e fotógrafo oficial. O curador do Masp e organizador da exposição, José Teixeira Coelho, lamenta a vinda de poucos óleos, mas explica que Freud foi acima de tudo um grande desenhista:

— A cor acrescenta dramaticidade às cenas, mas a essência de sua visão está no traço, que as obras em papel revelam de modo ainda mais direto — diz.

‘Difícil de olhar’

Para Teixeira Coelho, a paixão que Lucian Freud provoca é imediata.

— Com ele se está diante da “coisa em si”, da última verdade do ser humano, seu grande e obsessivo tema — diz.

Há três anos ele tenta trazer a exposição. A demora, explica, deve-se ao fato de ter sido difícil encontrar potenciais patrocinadores que se identificassem com as obras.

— Freud mostra o ser humano como ele é, sem idealização. É difícil mesmo de olhar.

A maior parte das gravuras foi emprestada do museu de Arte Contemporânea de Caracas; dois óleos pertencem ao British Council, e as outras obras são de coleções particulares. As pinturas “Girl with roses” (1948) e “Naked girl with egg” (1981) são os grandes destaques, segundo Teixeira Coelho. A menina com a flor representa Kitty Garman, primeira de muitas mulheres que Freud teve ao longo da vida. Dawson conta que encontrava o artista diariamente, e que ele era inesgotável, passava o dia trancado no estúdio, tendo pintado até duas semanas antes de morrer.

Dawson recebeu de herança do amigo o estúdio em Notting Hill, bairro nobre londrino, onde ele trabalhou nos últimos anos da vida, e cerca de 2,5 milhões de libras. Freud também teria sido um homem sensível, preocupado com as pessoas. Dawson e o seu cachorro, Eli, foram retratados diversas vezes. Aliás, Freud gostava mesmo era de retratar amigos e parentes. Achava mais interessante poder conhecer melhor uma pessoa próxima do que um modelo qualquer. O artista inglês David Hockney foi um deles. Freud pediu para pintá-lo, em troca seria pintado também, e Hockney aceitou. A modelo Kate Moss também foi retratada.

Retrato polêmico da rainha

Outra obra histórica é o célebre retrato da rainha Elisabeth II, feito em 2000. Dawson diz que a ideia de pintar a rainha foi de Freud, e que ela teria aceitado por ter se identificado com a paixão que ele tinha por cavalos. Dawson acompanhou o artista nas 20 visitas ao estúdio do palácio St James e fez uma foto que está na exposição. O resultado da obra gerou discussão entre os ingleses.

— Diziam que parecia que ela tinha barba e reclamaram que a pintura era pequena, mas a escolha do tamanho (66 x 50,8cm) foi para facilitar o transporte nas diversas visitas à rainha. O que importa é que ela gostou, achou moderno, e que hoje o quadro está no palácio — ele ri.

Nascido em Berlim em 1922, em uma família judia, Lucian Freud foi morar na Inglaterra aos 10 anos, escapando do início do nazismo. Lá ele teria tido maior contato com o avô, o inventor da psicanálise, Sigmund Freud. Para Dawson, a única relação do pintor com as ideias do avô é “o fato de os dois serem bastante interessados em querer entender as pessoas, um para tratar e o outro para pintar”.

Em Londres, Lucian frequentou a Royal Art College e foi amigo de Francis Bacon. Os dois faziam parte da chamada Escola de Londres, grupo de artistas interessados na pintura mais tradicional, inspirados nos realistas do século XIX, como Courbet e Manet. Enquanto isso, movimentos de vanguarda — como o abstracionismo e a pop art — fervilhavam nos Estados Unidos e em outros países da Europa.

— Ele não estava interessado no que os outros faziam, e muito menos no que pensavam de seus trabalhos. Não ia mudar a maneira de pintar — diz Dawson.

Para o historiador e crítico de arte Guilherme Bueno, Lucian Freud faz parte de um “movimento artístico de um homem só”, assim como tantos outros na história da arte.

— Foi opção dele não buscar novas linguagens, uma maneira de ser bem “inglesa”, de preferir o conservador ao novo — diz.

Mas, para alguns críticos, ele teria um espaço menor na história da arte por esse motivo. Controvérsias à parte, são inegáveis a força e a qualidade de seus trabalhos. Não é à toa que suas obras são vendidas por cifras astronômicas. A tela “Benefits supervisor sleeping”, que retrata uma mulher nua e obesa em um sofá, foi arrematada por mais de US$ 30 milhões num leilão da Christie’s em 2008.

Fonte: O Globo

 

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