”O mercado de arte nasce onde há riqueza”

 - Paulo Giandalia/AE
Paulo Giandalia/AE

 

É difícil de acreditar que o mercado de arte nem sempre fez parte da trajetória profissional de Fernanda Feitosa, criadora da SP-Arte. Só quando começou a frequentar galerias e leilões (aos sábados de manhã, com o marido, Heitor Martins) é que nasceu o interesse da advogada pelo circuito artístico. E, posteriormente, a ideia de uma realizar uma feira de arte internacional no Brasil.

A empresária recebeu a coluna em sua casa, duas semanas antes da abertura da SP-Arte/Foto, “filha” do evento, composta só por fotografias. Descontraída e falante, Fernanda dividiu o bom momento que vive o mercado artístico brasileiro e o crescimento da feira: “Começamos com 40 galerias, sendo uma internacional. Hoje temos 89”, conta, feliz.

Mesmo otimista, não tira os pés do chão: “Vivemos, no Brasil, um momento de formação de público do mercado de arte , não de consolidação, apesar de ser essa a aparência”, afirma.

Focada no crescimento “orgânico” do evento e nos impactos que causa no circuito cultural paulista, Fernanda foge de qualquer estigma culturete: “As pessoas podem se sentir inibidas, porque não conhecem arte. Eu também não conhecia. E aprendo continuamente. A feira é um local de querer conhecer”, diz, convidativa.

Abaixo, os melhores momentos da conversa.

A SP-Arte cresce a cada ano. A crise não atingiu o mercado de arte no Brasil?

Não chegamos a sentir muito. Porque o mercado da arte acompanha o ânimo da economia, e a brasileira anda bem. A sensação é de que estamos em uma grande onda que ainda não acabou. No entanto, não chegamos à praia. Acho que resolvi fazer a SP-Arte no momento perfeito, em 2005. O Brasil estava deslanchando, mergulhado no otimismo. E isso contamina a postura do indivíduo em relação ao que ele faz com o dinheiro que sobra. No lugar de poupar, ele pode se dar um prazer, pode comprar uma obra de arte legal. E o resultado é esse: estamos batendo recordes a cada ano.

Qual foi a estratégia para esse crescimento?

Temos de crescer organicamente. Nunca quis dobrar a feira, de 40 galerias para 80. Acredito que o público e o número de galerias têm de crescer juntos, para que todos fiquem satisfeitos. Uma das coisas mais desagradáveis que existem é sair de um evento de arte com a sensação de que foi dominado por aquilo – e não conseguiu ver tudo.

O que você acha que mudou do início da feira para cá?

O cenário hoje é muito diferente de quando comecei. Ainda bem. Tivemos 40 galerias no primeiro ano, uma do exterior. Hoje, temos 89. Escolhi o prédio da Bienal por isso, para que ela pudesse crescer, e a gente ir alugando os andares devagarinho. Tive o cuidado, também, de fazer com que a feira fosse internacional, mas majoritariamente brasileira. É o melhor da arte do Brasil em um só local.

Por que você escolheu São Paulo?

Porque toda grande feira de arte está baseada em um centro econômico. E São Paulo reúne as melhores condições para realizar o evento: a maior população, concentra 60% do PIB da América Latina, tem a maior frota de aviões e helicópteros do País. O mercado de arte nasce onde há riqueza a ser gerada e consumida. Por isso, as principais metrópoles do mundo têm feiras de arte: NY, Madri, Milão, Cidade do México…

E a SP-Arte/Foto nasceu de uma demanda dos compradores ou dos galeristas?

Foi um processo natural. Percebi uma procura por fotografia e o surgimento de galerias que trabalhavam só com fotos. Essa feira nos permitiu criar algo menor, sempre no segundo semestre, com espaço para discussão, debates. Assim, temos um encontro em maio e outro em setembro, mais segmentado. E o mercado se mantém ativo.

Os colecionadores de primeira viagem conseguem comprar algo nas feiras?

Sim. Essa é uma das grandes belezas. O evento tem de criar condições para quem está começando. Tem de existir um leque de preços acessíveis. É muito frustrante querer comprar, não conseguir e sair de lá com uma caneca (risos). Não tem caneca no evento…

Mas há muitos visitantes que não podem comprar.

Sim. E são muito bem recebidos. Vivemos uma etapa do mercado de arte que é de formação. Ainda não é de consolidação, apesar de ter essa aparência. Estamos educando nosso público. Então, tem muito mais gente que vai à SP-Arte para passear do que para comprar. É, sim, um local de plena realização da economia criativa e de venda. Mas também de informação. O público vai pela experiência. Depois, acaba frequentando a Pinacoteca, vai ao MAM, entra no clube da gravura…

Uma das críticas da feira é que é feita só para quem frequenta o circuito das artes. É verdade? Não se trata de uma panelinha. Circuito das artes vale muito a pena ser vivido e experienciado. As pessoas podem se sentir inibidas, porque não conhecem arte. Eu também não conhecia. E não conheço tudo até hoje. Aprendo continuamente. A feira é um local de querer conhecer. O galerista está lá de coração aberto e o público, para tirar suas conclusões – mesmo que estas sejam críticas.

Você acredita que a arte tem modismos? Tendências que apontam o que vende mais ou menos? Ou, por ser algo subjetivo, é difícil de definir?

Às vezes, surgem trabalhos muito bem realizados, um artista novo que a galeria acredita, que faz uma grande exposição, ganha a simpatia de um curador importante. E isso pode parecer modismo. Mas não é. Acho que acaba sendo um reflexo do tempo, da ansiedade da época. A arte é feita de ciclos. Um movimento surge para fazer anteparo ao anterior. Às vezes, vem com tanta força que temos uma sensação de domínio. Mas, geralmente, está ligado a uma tendência do comportamento humano daquela época.

O que você acha de artistas que customizam sua arte? Que licenciam seus traços para objetos como tênis, canecas e afins?

Acho que a indústria do utilitário tem buscado se apropriar da arte. Não é o artista que procura isso. É o contrário. Essa indústria busca a estética artística para valorizar seu objeto do cotidiano. Isso está relacionado com trazer beleza para a convivência diária. É um fenômeno interessante. E pode até fazer parte da proposta do artista. Para os colecionadores mais puristas, pode parecer ruim, mas alguns artistas não ligam para isso. Querem democratizar seu trabalho em qualquer extrato social e intelectual.

Os novos colecionadores estão em busca de arte por prazer ou têm uma preocupação mercadológica? Compram não para ter, mas para revender depois, por um valor mais alto?

Existem essas duas coisas. Tudo que tem potencial valor econômico (e arte sempre teve) corre o risco de ser objeto de especulação. Arte é valorizada. Em todas as guerras, objetos artísticos foram roubados, as pessoas fugiam de casa levando joias e quadros debaixo do braço, porque têm valor patrimonial. Então, não devemos demonizar. Entretanto, é tão vivo que, ainda que alguém entre com esse objetivo mercadológico, vai acabar gostando. Não é como comprar e vender ações na Bolsa, por exemplo. O espírito do verdadeiro colecionador é acumular, ter.

O que representa a força da economia chinesa no mercado de arte?

Mais de um bilhão de pessoas… É, portanto, um mercado muito forte. Se eles resolverem comprar, pode acontecer de catapultar os preços de jovens artistas chineses à estratosfera. É o que está acontecendo. Se isso vai durar, não sei. Porque o processo é recente e muito sustentado pela ação dos próprios chineses. Se tem potencial para sair da China e entrar nos mercados e museus internacionais, ainda vamos ver.

Quais os próximos desafios para as feiras de arte?

Meu objetivo é oferecer novidades para todo mundo: artistas, galeristas e o público. E, assim, aumentar a elasticidade de interesses entre eles.

Você também é colecionadora. Quais seus critérios na hora de adquirir uma obra?

Sou uma prestadora de serviço para as galerias com as quais trabalho. Então, às vezes, acabo deixando essa função para o Heitor. Sempre decidimos juntos, mas acabamos comprando muito em leilões. /MARILIA NEUSTEIN

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

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