Hércules Barsotti

“Quando encosto uma cor na outra é que percebo a relação entre elas; nesse momento, é meu olho e não minha cabeça que decide.”

Hércules Barsotti foi uma artista plástico brasileiro.

Hercules Barsott - Foto artista

Conhecido por seu trabalho concretista, Hércules Barsotti fundou o Estúdio de Projetos Gráficos, em 1954, junto com Willys de Castro. Na década de 1960, ele fez parte do Grupo Neoconcreto do Rio. Em 2004, o Museu de Arte Moderna de São Paulo organizou a exposição “Hércules Barsotti: Não-Cor Cor”.

Hércules Barsotti ficou conhecido por suas abstrações geométricas em formatos inusuais, como losangos, triângulos e hexágonos. Suas telas fogem à regra, dando a ilusão de relevos que saltam para fora da superfície plana do quadro.

Se destacou entre os modernos programadores visuais brasileiros, por suas pesquisas aplicadas à produção industrial de formas e cores.

Suas composições, em primeiro lugar, seduzem pela experiência retiniana da cor, para depois, incentivar à reflexão.

Hercules Barsott - Foto artista

Hércules Barsotti  – Biografia

Artista plástico nasce em São Paulo em 1914, estuda desenho e composição no colégio Dante Alighieri, em São Paulo, com orientação do pintor figurativo italiano Enrico Vio, de 1926 a 1933. Depois faz o curso de química industrial, que conclui em 1937, e atua na área até 1939. A partir dos anos 1940 resolve dedicar-se à pintura. Frequenta, por curto espaço de tempo, o ateliê do artista Dario Mecatti e faz naturezas-mortas e telas de influência surrealista.

Hercules Barsott - Foto artista

Em meados dos anos 1950, se desinteressa pela cópia da natureza e passa a realizar desenhos abstrato-geométricos com nanquim. Nesses trabalhos, feitos a partir de 1953, divide a superfície em formas geométricas regulares, delineadas por linhas negras, de larguras e direções diferentes. A posição do traço, a distância e a justaposição das formas criam a ilusão de deslocamento dos planos, sugerindo uma superfície tensa e quebradiça. Em 1953, ele projeta figurinos, com Luís de Lima e Badia Vilato, para o espetáculo de mímica O Escriturário, baseada em Bartleby, de Hermann Melville. A peça, encenada no Teatro Cultura Artística, é dirigida por Luís de Lima com o grupo de atores da Escola de Arte Dramática (EAD), em São Paulo.

A partir de 1954, realiza trabalhos construtivos, independente contudo do grupo concreto paulista. A partir desse mesmo ano passou a trabalhar em desenho têxtil e, juntamente com Willys de Castro, funda o Estúdio de Projetos Gráficos, em São Paulo.
A ligação com Willys e o contato com uma lógica industrial de trabalho aproximam-no ainda mais das poéticas concretas. Então começa a atuar como artista gráfico e cria estampas para tecidos. A objetividade peculiar do concretismo, no entanto, só aparece em sua pintura a partir de 1957. Até 1957, trabalha ainda como ilustrador de revistas.

Hércules Barsotti simplifica sua pintura e passa a utilizar formas geométricas impessoais, em preto e branco. Esses elementos evitam as marcas do pincel e, se articulando em série, sugerem volumes virtuais. No entanto, Barsotti não adere a nenhum grupo de vanguarda nem assina nenhum manifesto concretista. Expõe trabalhos na 4ª Bienal Internacional de São Paulo. Em 1958, Barsotti ganha a pequena medalha de prata do Salão Paulista de Arte Moderna e parte para a Europa com Willys de Castro. Lá estuda e visita Itália, Suíça, Espanha e Portugal. Durante a viagem o pintor conhece Max Bill, que será decisivo em sua pintura.

Sua primeira individual acontece em 1959 na Galeria de Arte Folhas, em São Paulo, e seu trabalho demonstra uma afinidade com o neoconcretismo, assim como o de Willys de Castro.

Hércules Barsott – Entidade Múltipla II – 98,6 x 98,6 cm (diagonal)

Hércules Barsott – Entidade Múltipla II – 98,6 x 98,6 cm (diagonal)

Nesse período, seu trabalho fica ainda mais austero. O artista pinta sobre superfícies homogêneas – pretas ou brancas – faixas que se afinam no centro ou nas margens da tela, dispõe elementos sugerindo diagonais que produzem a impressão de curvatura na superfície da tela. Sua pintura passa a trabalhar o quadro como um objeto que será desenvolvido como algo dúbio, um plano que sugere um volume. Esse movimento aparece pela primeira vez em telas como Branco/Preto (1960) e Preto/Branco/Preto (1960).

A partir dos anos 1960, participa das bienais internacionais de arte de São Paulo, e apresenta trabalhos nas mostras neoconcretas realizadas nos anos de 1960 e 1961. Com outros artistas, fundou o grupo Novas Tendências.

Com o Grupo, expõe em 1960 no Ministério da Educação e Cultura (MEC) no Rio de Janeiro e no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) em 1961. Ainda em 1960, ele mostra seus trabalhos na exposição Konkrete Kunst [Arte Concreta], organizada por Max Bill, em Zurique. Junto com a aproximação ao neoconcretismo, Barsotti retorna à tendência de progressiva austeridade em sua pintura. Em meados dos anos 1960, incorpora a areia como fonte de brilho e de densidade física de suas pinturas. A partir de 1963, abandona a fé ortodoxa no preto e branco concreto, e consegue importar seus primeiros tubos coloridos de tinta acrílica. O formato da tela determina a estrutura interna dos trabalhos. O artista produz quadros em formatos hexagonais, redondos e pentagonais. Em 1963, desenha, com Willys de Castro, o logotipo da Galeria Novas Tendências, fundada e gerida pelo grupo concreto de São Paulo.A convivência com Willys deixou marcas profundas na obra de Hércules Barsotti.

Desde 1964, Hércules Barsotti desenvolve pinturas em que sequências regulares de cores se sucedem sugerindo certo volume nas telas de formatos pouco usuais. Realiza individual, em 1965, na Galeria Novas Tendências, em seu último ano de funcionamento.
Integrou a Associação Brasileira de Desenhistas Industriais. Foi classificado em concurso nacional de desenho de padronagens têxteis em 1967. Destacou-se entre os modernos programadores visuais brasileiros com suas pesquisas de forma e de cor aplicadas à produção industrial.

Nas pinturas realizadas durante os anos 1970, como Núcleo Aberto (1971), dá continuidade às pesquisas realizadas na década anterior. Em alguns trabalhos, sugere um relevo virtual que aumenta das bordas ao centro da tela. O uso das cores e das sugestões de volume aproxima estas obras da optical art. A partir da década de 1990, volta a simplificar suas pinturas, reduz o número de cores e as aproxima.

Hercules Barsott - Conexoes Cruzadas

Hércules Barsott – Conexões Cruzadas – 74,6 x 100,3 cm

 

Em 1998, o Escritório de Arte Sylvio Nery da Fonseca, em São Paulo, faz uma retrospectiva dos desenhos de Barsotti feitos durante a década de 1950. Em 1998, Barsotti vendeu sua coleção histórica de arte concreta, desfazendo-se de 21 de seus desenhos que participaram de importantes mostras e bienais. A maior parte dessas obras foi produzida na época da polêmica entre os concretos paulistas, liderados pelo pintor Waldemar Cordeiro, e os neoconcretos cariocas.Em pinturas mostradas na mesma galeria, em 2002, o artista retoma o uso da areia.

Em 2004, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, organizou uma retrospectiva das obras de Barsotti celebrando seu 90º aniversário.

Hércules Barsott – Campo Dominante I – 80 x 80 cm

Hércules Barsott – Campo Dominante I – 80 x 80 cm

No dia 21 de dezembro de 2010 falece o pintor paulistano Hércules Barsotti, um dos principais nomes do construtivismo brasileiro.

Curiosidades

Críticas

“Seu interesse é o da natureza da pintura e as possibilidades gestálticas de cor, superfície, espacialidade. Participante ocasional do Grupo Concreto de São Paulo, mais próximo ideologicamente aos artistas do Rio de Janeiro, trabalha, desde o início dos anos 50, a cor, particularmente o preto e o branco, e a dinâmica das possibilidades da forma. Procurando o equilíbrio entre razão e emoção, seus quadros possuem uma qualidade objetual resultante da ilusão tridimensional provocada pela disposição desequilibrada dos campos de cor em relação à moldura. As formas flutuam, giram, escapam para fora da tela. Frederico Morais dele escreve que ‘tensiona o espaço da tela, criando uma relação da cor com o espaço; este se expande e contrai, criando uma relação ambígua entre a forma e o fundo’. As telas de Hércules Barsotti são ‘atos de espacialização’, conforme colocação de Ronaldo Brito. Na virada da década de 60, produziu uma série de telas em branco e preto ou preto e branco, que são jóias de síntese do tratamento das possibilidades gestálticas da figura/fundo, na qual a figura menor concentra maior energia, criando a ilusão de expansão e rotação com grande economia de elementos”.
Gabriela S. Wilder

“As telas de Hércules Barsotti realizariam, a meu ver, o mesmo processo por um caminho inverso: partindo da intuição sensível da cor alcançam a compreensão lógico-estrutural. E isso pode-se verificar, a contracorrente, nas etapas de produção. Primeiro, o pintor como que se despe de matéria e fatura pictóricas e de empatias cromáticas. A cor é tomada como ato puro de espacialização. E o a priori do formato, a opção de atacar deliberadamente triângulos, hexágonos, etc. , assinala o domínio do raciocínio estrutural sobre quaisquer mimetismos. Isto posto, o pintor faz retornar a natureza já como um dos momentos do processo cultural – a natureza como pintura, com a vibração física das cores. Cada tela exala assim um tônus afetivo, certa disposição do espírito para articular e viver um mundo. A figura geométrica vai reaparecer, portanto, qualificada pela cor – não há finalmente triângulos ou quadrados puros e ideais”.
Ronaldo Brito

“O observador – bem ou mal-acostumado com o modo de ver uma obra de arte tradicional, após passar pela indefectível associação figurativa que os planos coloridos ou a forma externa de uma obra de Barsotti possam induzi-lo – começa a perceber, por meio do caráter de obra inteira, um fluxo conciso de informações de natureza puramente visual. Como a nossa interpretação dos sinais do perceptível se dá dentro de nós, em primeiro lugar, é bem possível que nesse ponto – com um pouco de esforço e humildade – passemos a indagar mais do objeto percebido do que de nossa memória, ou melhor, de nosso arquivo de modelos e vivências confrontadores. Daí, a um passo, plena de significações imprevistas, sua obra deixa transparecer o que cada um dela deve depreender”.
Willys de Castro

“Fascinado pelas superfícies translúcidas, magras e homogêneas que a acrílica permitia executar na tela, Hércules Barsotti nunca mais a abandonaria, conquistando com ela uma paleta de enorme riqueza cromática. Suas telas chegaram a articular simultaneamente até uma dezena de faixas de tons. Aos poucos, porém, e mais acentuadamente nestes últimos anos, o artista reduziu os campos de cor utilizados em cada composição. Agora ele os faz com dois ou no máximo três tons, um deles quase sempre ocupando agudíssimas áreas que, além da tensão cromática, promovem um deslocamento virtual dos palnos, instalando uma hipótese de volume. Cada trabalho, vale lembrar, é precedido de projeto traçado com exatidão sobre papel milimetrado. Só depois dos problemas esstarem perfeitamente resolvidos nessa instância é que Barsotti parte para a execução. Ou a delega, sem temores. Afinal, “a execução nunca incorpora surpresas”, sustenta ele. ‘Meu pensamento é arquitetônico, o projeto já é a coisa pronta’. A escolha das cores, no entanto, não obedece a esse raciocínio cartesiano. É pessoal e intransferível, construída de modo retiniano, durante a mistura dos pigmentos. Operação semelhante acontece quando a decisão é quanto à área que aquela tonalidade irá ocupar na tela. “Quando encosto uma cor na outra é que percebo a relação entre elas”, conta. ‘Nesse momento, é meu olho e não minha cabeça que decide’ “.
Angélica de Moraes

O sentido de rotação das figuras, a partir do ponto central seria outro modo peculiar de Barsotti experimentar dimensões do espaço e do tempo. Ele gira em poucos graus figuras quadradas inscritas no interior do plano pintado; roda 45 graus o suporte do quadro sobre a parede. Na nova posição, o quadrado colocado a partir de um vértice flutua como um losango regular, enquanto as diagonais do quadrado, agora postas em sentido horizontal e vertical, passam a garantir a estabilidade visual do objeto-pintura. Os quadrados expandidos pela diagonal serão definitivamente adotados pelo artista para o desenvolvimento da experiência da cor. Da ordem geométrica, Barsotti atinge a vida da imagem. A estrutura interna da sua obra está fundada na experiência geométrica, mas a certeza sensível advém da prática experimental. A geometria é um instrumento para inventar e experimentar o espaço. Por isso, nunca é demasiado lembrar que os gregos empregaram diretamente a linguagem da proporção, lá onde hoje nos servimos do formalismo calculatório. Pode-se compreender adequadamente a geometria como um modo de apresentar um problema, como aparência sensível de uma idéia que não se expressa por outro código. Ela constitui um dos notáveis capítulos da matemática irracional, o que pode ajudar a compreender que os procedimentos visuais razoáveis e sensíveis não podem ser considerados ‘racionalistas’ “.
Ana Maria de Moraes Belluzzo

Fonte: Mercado Arte

 

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