Exposição “Desenho Premiado” de Gustavo Jeronimo abre dia 6 de Junho

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Leia abaixo o texto de Saulo Di Tarso sobre a exposição

O jogo do jogo na obra de Gustavo Jeronimo

Gustavo Jeronimo pertence a uma geração que está praticamente fora do registro histórico brasileiro atual. Primeiro porque é uma geração condenada a olhar para a história para se situar no mundo já que as relações sociais em torno das décadas da Ditadura no Brasil foram dessocializadas, especialmente até o período em que se deram as Diretas Já. Resumidamente, os grupos que lutaram contra a Ditadura apontam as gerações posteriores a si como gerações fracas enquanto as gerações do impeachment e os grupos que não lutaram também acabaram omissos e não obstante ficaram a mercê da desculturação do Brasil. Se por um lado quem era de esquerda começava a se familiarizar com teoremas alheios ao Brasil, vindos de países da chamada Esquerda, quem servia a direita assimilava passivamente o produto de entretenimento que era forjado nos brasileiros pela direita como a Esquerda internacional forjava, na esquerda brasileira, produtos do engajamento na resistência que eram alheios às lutas seculares no Brasil que tinham mais força como a antiescravidão, a luta pela terra, pela ascensão internacional da cultura brasileira em diversos movimentos que foram, na verdade, esquecidos durante a ditadura militar. Entre as “raices de america” e a Jovem Guarda, militares e militantes antimilitaristas, exceto pela luta antiassassina e em favor dos direitos humanos já que, de fato, a intelectualidade brasileira, o Brasil socialmente maduro culturalmente foi extirpado durante a ditadura, tudo, do ponto de vista conceitual era pura alienação de Direita e Esquerda. Além disso, (data de nascimento, cidade de nascimento, bairro onde cresceu) a soma geral da formação de Jeronimo, inclui o ABC. Viver no ABC não é para amadores. O ABC é uma região que foi feita para ser esquecida. Fechada com as melhores armas conceituais do mundo e, somada a patente ignorância da esquerda como estamos assistindo hoje no maior desastre da cultura que a democracia brasileira está assistindo, é a economia mais potente do Brasil regionalmente depois da República e possivelmente um dos fragmentos de antropologia social mais ricos do século XX. É a grande concessão de Juscelino Kubitschek e a grande glória da massa crítica brasileira do Pós República. É o caldeirão antropológico que gerou o primeiro Presidente popular da história da República, Luis Ignacio Lula da Silva. Pode-se resumir a vida cultural do ABC, lugar onde Jeronimo nasceu e cresceu da seguinte forma: fábricas automotivas alemãs, americanas e italianas. Serra do Mar. Interrupção do projeto ferroviário brasileiro como preço exigido a ser pago pelo pacto com a indústria automotiva. Operários. Italianos anarquistas e refugiados de todo tipo povoando o lugar em 150 anos no mínimo. Favelas das mais perigosas do Brasil nos anos 80. A rodovia dos imigrantes e seus caixões no almoxarifado durante as das obras. Greve. Os primeiros imigrantes viviam na Serra do Mar de antes do Parque estadual. Outros guerreiros também habitavam o ABC, egressos do Cangaço, fugitivos abastados, matadores. Gente com a verve da riqueza e do trabalho que foi logo estigmatizada pela indústria automotiva como classe operária e Candangos que chegaram ao ABC assim rotulados, na verdade, somente após a revoada de homens e mulheres que não encontraram lugar em Brasília. Resumir a população do ABC a um operariado imaginado é um erro histórico. E tanto pior pela baixa estimação imposta à figura do nordestino como foi imposta pelos senhores do café aos imigrantes europeus. E antes aos que, vindo do velho mundo povoaram o Brasil e a América. Getúlio Vargas já havia perturbado a paz dos italianos durante a Segunda Guerra com o confisco de
suas propriedades e a interdição de suas fortunas. Gente que não havia aceitado ser refém dos fazendeiros escravocratas do café. Engenheiros russos que haviam feito os aquedutos serra abaixo e à cima. Índios Guarani, negros dos quilombos do rio Taissupeva. Italianos mineradores, portugueses carpinteiros trazidos pelos ingleses que implantaram a São Paulo Railway. Lula quando chegou ao ABC caiu dentro de um caldeirão altamente crítico e disciplinado em termos de postura de trabalho. Havia consciência forjada aqui do mesmo modo como a que havia se forjado em Pernambuco tendo Miguel Arraes no epicentro de uma revolução social nos anos 60. As primeiras empresas de transporte de São Paulo foram esforço destes núcleos humanos que antes disso subiam via linha do trem para povoar São Paulo, driblando a catástrofe da Segunda Guerra e a imposição do limite alimentar, educacional e econômico que aqui se deu em conhecidos racionamentos. A história da riqueza da São Paulo Pós Café passa diretamente pela história da mineração e da indústria automotiva. De trabalho árduo sobre o qual se assentou a mítica glória do império dos Matarazzo que não teria tido êxito sem a coadunação de Nelson Rockfeller. A luta operária que desaguou no PT é anterior a Lula em termos de massa crítica e deve sua força originária a Mario Pedrosa que foi o inventor do Partido dos Trabalhadores, sem o qual Lula, nunca teria passado de uma grande liderança sindical, pois o PMDB jamais teria lhe dado força suficiente para se eleger. O primado da autonomia, via-de-regra, já era estabelecido no ABC e teve como ponto culminante as Greves operárias do ABC dos anos 80.
É um pouco antes que nasce a geração de Gustavo Jeronimo, por volta do início dos anos 70. A cena social do país era totalmente dominada pelos antagonismos da ditadura militar. Quem vinha da militância iria conduzir Lula ao poder, borrifados pelo espírito de abertura de Figueiredo e o sociologues de FHC que resultou na via do centro, ou seja, a debandada do PMDB para criar o PSDB, partido pelo qual FHC se elegeu. Mesmo que essa geração quisesse, ela não teria meios, dialeticamente, para estar entre os líderes dessa transição que até hoje perdura. A geração de Lula e FHC passou por cima de nossas cabeças, olhando para o futuro e para seus próprios oponentes, duramente, enquanto essa juventude a qual o anonimato foi imposto tinha como opções sofrer pela consciência ou flanar pelo consumo. Isto com ou sem o gesto midiático cara pintada.
Mas voltando ao estigma da geração de Gustavo Jeronimo: geração de pais separados, orgulho da fábrica, netos do milagre econômico e suas inverdades. Filhos de operários mesmo sem ser. Gente sem cultura. Grupo opinião de um lado, Fantástico na TV. E o matemático Oswald de Sousa http://pt.wikipedia.org/wiki/Oswald_de_Souza dando ossos racionais à frustração de apostadores que haviam perdido na Loteria Esportiva, domingo a domingo, no programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão. Conflitos sociais davam lugar à calmaria propagada pela mídia. Ópio eletrônico. Silvio Santos vem aí. Informação para a desinformação durante 20 anos seguidos. Voto aos 16 anos por consciências totalmente silenciadas. Uma infinidade de modelos de Fusca haviam surgido. Programação infantil na TV. Os livros da Abril Cultural e os Gênios da Pintura. Livros do Círculo do Livro. Gente vindo de todos os lados. Explosão demográfica. Pequenos burgueses, amantes da Jovem Guarda. Engajados ouvindo Joan Baez e Mercedes Sosa. Gente cult, ouvindo Bossa Nova. Festivais natimortos de música. Como nossos pais. E não éramos nada disso. O ABC tinha mudado radicalmente sua paisagem. O niilismo Punk, os Carecas do ABC, a revolta da juventude sem pai nem mãe bem na porta da sua casa. As curvas da infinita Railway. Nosso Havaí era uma pista de skate ao lado da escola técnica.
Maiores abandonados. Sacilotto tinha dado certo, mas estava esquecido em Santo André. O Tropicalismo pouco dizia a quem quer que fosse ao ABC. Não teve uma influência direta a não ser pela televisão. O namoro era ouvindo o Pop brega americano. Mas o Rock, a arquitetura, o skate, o graffiti, a roda de conversa, a militância escondida sim. O Punk Rock das ruas, a poesia concreta. Tudo isso fazia sentido na estranha percepção de casas ao mesmo tempo militarizadas e engajadas na oposição. As Casas Bahia só deram certo em termos de marketing porque só deram certo porque as populações imensas que foram formando-se precisavam avidamente de seus produtos e da forma de pagamento ofertada. Cidades imensas sem Universidades. Inteligência empírica. Cultura de Roda. Racismo literal. Racismo antioperário. Alimentos enlatados. Flandres da Indústria Matarazzo para enlatar salsicha, patê de presunto e feijoada. Sardinha Coqueiro. Vilas industriais, vilas operárias. Garagem ocupando 30% do espaço do terreno da habitação geminada. Em Santo André algumas intervenções de Artigas, Niemeyer, Rino Levi. A Companhia Telefônica Borda do Campo. Os estados de Minas Gerais, Bahia, Parahyba, Ceará e Pernambuco transferindo populações maciças pro ABC que se transformaram num mix sem precedentes até a metade da década de 80. E o que realmente uniu essa geração foi a cultura de rua. O Rock e particularmente o Rock nacional da cena de Brasília. No ABC, a Banda Golpe de Estado polarizava a juventude, mas não sobreviveu como as bandas críticas, aliás. E como é de se supor os “chefes” das multinacionais eram gente importada como de Wolfgang Sauer para baixo. Evidentemente essas pessoas não moravam no ABC aparente. Moravam em bairros maiores, isolados, planejados de outra forma ou em São Paulo, com outros valores e padrões sociais. O alheio tomou conta da vida e dos símbolos de uma população pré-existente da qual a única coisa que sobrara foi o jogo. O Jogo destas relações. A Arte no ABC, as artes visuais propriamente tem um caminho exponencial bem curto. Sacilotto, Paulo Chaves, Sandra Cinto, Paulo Climachauska e Paulo Nenflídio. Herbert Baglioni, signo e filho da liberdade conquistada a duras penas entre Direita e Esquerda negligentes com a questão da cultura e muito mais evidentemente da arte. E no sentido direita ou esquerda volver, jamás! Sacilotto foi refém do que ele chamava de subúrbio e é até hoje. O próprio Décio Pignatari escreveu um artigo na ocasião de sua morte referindo-se à glória de um operário, exemplificando bem o que é a vida, mesmo de um gênio, quando a sua comunidade não supera o ostracismo múltiplo suburbano que impõe aos seus habitantes. Afinal, a luz da política cultural na esquerda foi assassinada. Celso Daniel está morto duas vezes. É além de tudo arquivo judicial morto. Na direita tivemos Tito Costa que se preocupou com arte e cultura. E voltando ao assunto das artes, Sacilotto foi, no entanto, bem mais que um operário. Era um dedicado em tempo bissexto ao ABC e sua cidade. Foi uma das maiores inteligências visuais e intelectuais de seu tempo. E muito crítico embora 100% discreto politicamente. Sua operação de ateliê era completamente parecida com a de Volpi neste sentido só que Sacilotto foi um homem da Gestalt e não do idílio das bandeirinhas ou das fachadas que singularizava Volpi na sua pintura. O que ninguém suspeita é a razão pela qual Volpi pintou essas e não outras fachadas e bandeirinhas. Porque Sacilotto fez essas e não outras esculturas cortadas e dobradas. Sandra Cinto conduz o ateliê de arte contemporânea mais significativo em termos da formação de novos artistas da cena paulistana, o ateliê Fidalga, ao lado de seu companheiro Albano Afonso. Paulo Climachauska, historiador, além do artista que é, impregnou a arte brasileira da dotação do menos enquanto matéria prima. O que suprime, no entanto, de suas contas diárias, tem por resultado aquilo que revela uma profunda crítica social. Paulo Nenflídio é, aliás, um dado real desta conta que Climachauska
efetua de maneira permanente. Só que pra nossa felicidade ele conseguiu romper a barreira da sua geografia com as travessias que tem feito através de sua escultura eletrônica imago-musical. E Herbert Baglioni é um prodígio dessa cultura de rua do ABC, cuja estética se liga inerentemente ao movimento internacional de Street art que nunca se projetou e nem se colocou desta forma e que simplesmente acontece onde estiver. Como aconteceu no Panorama em ….
E, finalmente, aquilo sobre o que fala o “Desenho Premiado”, de Gustavo Jeronimo está a outra parte do jogo das artes visuais no ABC, a parte que não aparece no jogo. A parte invisível e que tem um desejo de permanência pelo seu espaço originário, o ABC. A questão do contrato por ele proposto como obra independe totalmente da ampliação do bilhete de loteria como parte formal da obra. O que importa realmente são as partes envolvidas no contrato, obrigando-se a cumprir o objeto especificado. Quando o Salão de Arte Contemporânea Luis Sacilotto fez 40 anos, Gustavo expôs uma obra feita com massa de tomate num vidro que possibilitava que víssemos o seu perecimento em cena, durante o Salão. É mais ou menos assim que vive a sua geração: como atores que embora em cena não podem mover-se durante a cena e ali nascem e perecem a mercê de todo o sentido de espetacularização que pertence a estrutura do contrato social vigente e que cristaliza comportamentos onde todos são obrigados a permanecer de maneira inerte. É uma ação estática que propõe um mova-se. É mesmo um jogo de cena onde o mocinho do filme se submete a um teste de congelamento altamente questionador no sentido que indaga se o congelado é a personagem ou se são os apostadores, no caso da loteria a que está submetida o contrato do “Desenho Premiado”.
Toda semana, diariamente, milhares de apostadores apostam. Um em cinquenta milhões acerta de vez em quando. Todos se movem até a casa lotérica. A lotérica não se move. Os operadores se movem. A impressão do cartão de apostas não se move. O traçado, o preenchimento dos apostadores é um movimento. Uma ficha de inscrição, por assim dizer, que se paga e preenche de forma anônima para adentrar o mundo da sorte. Bem parecido com a estrutura do sistema atual. O sistema da loteria não se move. O seu faturamento bilionário sim. No facebook nada se mexe. Quem se mexe para uma imobilização sem fim são os apostadores, os faceplayers. São os que contem a própria face no jogo do livro da face. Um à cada tantos milhões alcançará algum tipo de glória sonhada como a que é perseguida, assim como pelos apostadores da Sena, da Mega Sena e da cena artística como a obra proposta por Jeronimo e tantos outros que tentam, indaga. E apesar de anônimos, continuarão, por questão de segurança, se contemplados, anônimos. E o mais singularmente expresso no jogo simbolizado pelo “Desenho premiado”: cada um dos envolvidos só se move se o Outro se mover. Mas não há nenhum desejo consciente de movimento das partes e sim uma aceitação ou não, a não ser quando o próprio artista questiona a imobilidade à partir do acaso como regra de estímulo. E o centro deste acaso proposto não é um jogo de dados e sim uma montanha de dinheiro que a loteria pode repassar ao envolvidos ou não. E neste jogo, todos do art system e do System querem fama e êxito financeiro. Como em outdoors e em contratos, jogadores e anunciantes se movem, apostadores se movem, mas os donos da estrutura e as estruturas, leis e as regras do jogo não mudam, mesmo quando a ação suposta é a do propositivo artista enquanto criador aquém do sistema que impõe o comportamento individual entre o Objeto e as partes. O jogo do jogo só continua ainda se houver premiação, caso contrário tudo permanecerá a inércia institucional e perceptiva como ele questiona. E o
mais alarmante da coisa toda: se houver continuação o desfecho está previsto em contrato mas é sine qua non que alguma das partes envolvidas pode sempre romper com o objeto de contrato. E neste caso a equação proposta pelo trabalho se devolverá ao artista. E uma questão final: o que é visível e o que não é visível dentro do jogo? Deixo o dizer para a manifestação do controle central, ou a corrente alienada de esquerda-direita que teve a alma suprimida por uma ação central que impôs a todos nós o centro invisível de comando da ação da qual todos nós somos, querendo ou não, apostadores frequentes. Assim como espectadores.
Faço a minha aposta de que o ABC se mexa para o outro lado do julgamento de Eichmann e de que Gustavo Jeronimo, em breve, consciente das partes, irá mover seu objeto para dentro da cena principal: o jogo da arte que se diz contemporânea sem nem mesmo saber o que foi ter sido Arte Moderna. Daí o jogo do jogo que explica que neste tempo o que predomina não é mais nem o artista e nem a obra e sim o jogo que forja as instituições para que elas sejam o epicentro da questão criativa comandadas por um centro invisível cujas ações são imprevisíveis e dogmáticas tal qual as regras do sistema financeiro que para uma total surpresa social antiartística, mais do que controlar números passou a acomodar cérebros na posição menos incomoda que vai de ser espectador a apostador no caso dos esquemas da arte como Gustavo Jeronimo percebe.
Saulo di Tarso | artista visual, curador e ainda performer. Maio de 2013.

 

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