Choque de gestão

A recente indicação de André Sturm, ex-dono do Cine Belas Artes, para a direção do Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo trouxe à tona um questionamento sobre o foco da instituição.
A gestão anterior, apoiada por artistas como Regina Silveira e acadêmicos como Lucia Santaella (da PUC-SP), defendia uma reinvenção do museu com base na emergência das novas mídias tecnológicas, encorajando a experimentação em vários suportes e linguagens.
Em outras palavras, pesquisa e arte conceitual. “O MIS sempre foi associado à vanguarda. E vanguarda hoje é pesquisar todas as linguagens depois do computador”, diz Santaella.
Andrea Matarazzo, secretário de Cultura, pensa diferente: “O MIS não pode ser tão hermético. Não se pode usar a verba de R$ 9 milhões para um público de só 80 mil pessoas, como em 2010”.
Assim, indicou Sturm ao conselho da organização social, entidade sem fins lucrativos contratada pela secretaria para administrar o MIS.
A escolha de Sturm causou indignação e, semana passada, circulava uma petição pública somando quase mil assinaturas que falava em ingerência do governo e tentativa de transformar o MIS em “museu da televisão”.
Sturm é figura conhecida entre os ativistas culturais ligados ao cinema. Pioneiro na distribuição de filmes independentes, trouxe nos anos 90 obras de diretores até então desconhecidos, como Krzysztof Kieslowski e Theo Angelopoulos.
Mais recentemente, esteve na unidade de Fomento e Difusão da Produção Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, tendo se tornado praticamente um braço direito do ex-secretário João Sayad e do atual. Ele falou à Folha sobre seus planos.

Folha – O que pretende fazer à frente do MIS?
André Sturm – Oferecer programação de qualidade com muita gente interessada. Essa é a função do artista e do gestor cultural: tirar o que é bom do gueto. Fazer show da Ivete Sangalo e encher é fácil. O que sempre me orgulhou foi lançar um filme chinês como “2046” e deixá-lo um ano em cartaz.
O que acha das diretrizes da antiga gestão do museu?
O museu tem muito espaço e muitas possibilidades que não vinham sendo usadas. O trabalho anterior é de qualidade, mas muito restrito. Quantas pessoas se interessam por isso? Qual a repercussão social? Pretendo manter essa linha de novas mídias, mas quero fazer outras coisas também.
Como, se houve um corte de 25% da verba aproximadamente, de 2010 para 2011?
Vai ter que rever, eventualmente corrigir algumas questões. A missão é preservar o que existe e apontar para a frente. Só não dá para ficar apenas na vanguarda pela vanguarda, acho meio vazio.

Dê um exemplo.
Ontem fui dar uma volta completa no museu. Visitei o tal do LabMIS, que eu não sabia o que significava. Quando perguntei, me responderam: “É um conceito”.
E o que é?
Trata-se de uma residência para quatro pessoas ficarem ali por três meses. Não tenho nada contra. Mas por que não receber 2.000 pessoas para fazer uso daqueles equipamentos maravilhosos em aulas e oficinas?
Há ilha de edição, computadores incríveis, softwares de animação, estúdio. Um projeto que pretendo realizar é um festival de videoclipes que não foram para a MTV. Vai ter de tudo. Som contemporâneo, comum…
E fotografia?
Não sou profundo conhecedor, mas é uma área que adoro. Pretendo dar muita visibilidade ao acervo e abrir o MIS para exposições.

E na área de cinema?
Festivais como É Tudo Verdade e a Mostra de Cinema devem ampliar sua participação. Apoiaremos os programas do governo. E pretendo exibir filmes mudos com música ao vivo no MIS.
Você é dono de uma distribuidora e produtora de filmes, e tinha salas de cinema. Não há conflito de interesses?
O Gil era ministro da Cultura e tinha uma empresa que se beneficiava da Lei Rouanet. É só um exemplo, não estou criticando ninguém. Meus negócios recuaram muito desde que entrei na secretaria. Não concorri em editais e só distribuí filmes sem relação com a secretaria. É um preço a pagar.

Você enxerga ingerência do governo em sua nomeação?
Não. Acho que é função do Estado estabelecer políticas e metas. Cabe à OS administrar e dar andamento a isso.

Fonte: jornal Folha de S. Paulo; 05/06/11; texto e entrevista de Morris Kachani.

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