Arte revelada pela ciência

Mila Trenas – O Estado de S.Paulo

A atribuição da tela Natureza-Morta com Flores do Campo e Rosas a Vincent Van Gogh é a mais recente de uma série de descobrimentos no mundo da arte, que só se tornaram possíveis com os avanços tecnológicos e científicos.

O quadro, de dimensões pouco comuns para o artista – de 1 m x 0,80 cm – e agora exibido no museu holandês Kröller Müller, era antes creditado a um artista anônimo até se tornar objeto de um estudo no qual se aplicou a ele uma avançada técnica de raios X.

Graças a essa investigação, descobriu-se que sob as tintas da tela havia outro desenho com os troncos de dois lutadores, pintados por Van Gogh perto de 1886, durante um curso na academia de arte de Antuérpia, de acordo com o registro feito pelo próprio pintor numa carta ao irmão Theo.

Há poucos dias, foi anunciada mundialmente a possível descoberta do afresco Batalha de Anghiari (1452-1519), de Leonardo da Vinci, graças ao achado de restos de pigmento preto atrás de um falso muro do Palazzo Vecchio de Florença. As pesquisas apoiam a teoria segundo a qual a Batalha de Anghiari teria ficado na parede em que hoje está o mural Batalha de Marciano, de Giorgio Vasari. Para fazer a investigação, foi utilizada uma sonda endoscópica equipada com uma câmera e inserida na parede em que fica o afresco de Vasari. Isto permitiu descobrir os pigmentos atrás do mural e recolher amostras para futuros testes.

No fim de fevereiro, o Museu do Prado apresentou uma “gêmea” da Mona Lisa. Graças às análises técnicas e à restauração da obra, foi possível recuperar a imagem original do quadro, um dos registros mais representativos dos procedimentos do ateliê de Leonardo, o que faz dela a versão mais importante conhecida da Mona Lisa até o momento.

A reflexografia infravermelha, a radiografia, os contrastes fluorescentes induzidos pela luz ultravioleta e os exames com lentes de aumento revelaram como o quadro foi pintado e o seu estado de conservação, possibilitando a eliminação dos retoques com tinta preta no fundo e a recuperação da paisagem.

Os estudos sobre O Vinho da Festa de São Martinho, de Pieter Brueghel, o velho, comprada pelo Museu do Prado, também permitiram que o quadro fosse catalogado como a mais importante descoberta dos últimos 25 anos na arte flamenca.

A autoria da pintura foi definida durante o trabalho de restauro no ateliê do Museu do Prado, sendo atribuída a Brueghel, o velho, nome mais importante da pintura flamenca do século 16 e autor de 41 telas conhecidas.

Rembrandt é outro dos grandes mestres que esteve envolvido em novas descobertas. Um grupo de pesquisadores da arte holandeses encontrou no ano passado um quadro dele até então desconhecido, o retrato de um homem com uma espessa barba branca. A obra parece ter sido pintada por Rembrandt van Rijn perto de 1630, coincidindo com o último período de sua estada na cidade natal de Leiden (sudoeste da Holanda).

Outro grupo de pesquisadores do Rijskmuseum de Amsterdã trouxe à tona em setembro um suposto retrato de Goya oculto sob a tela Retrato de Don Ramón Satué, que mostra um general napoleônico. A obra, descoberta graças a uma inovadora tecnologia de raios X, mostra um militar de alta patente que acompanhou José Bonaparte em sua chegada à Espanha como rei.

Além de permitir a descoberta de obras e a correta atribuição da autoria das telas, os avanços utilizados hoje servem também para revelar segredos dos pintores, como a face de um demônio oculta entre nuvens de um dos afrescos de Giotto de Bondone que adornam a basílica superior de Assis, em Perugia (centro da Itália).

As meditações de São João Batista, obra de Bosch que pertence ao acervo do Museu Lázaro Galdiano (Madri), guardava também um segredo no seu interior: um rosto humano que permaneceu oculto por séculos. Uma espécie de planta trepadeira foi o elemento escolhido pelo holandês para cobrir o retrato pintado anteriormente, que foi revelado pelo grupo de pesquisadores dirigido pelo holandês Matthijs Ilsink.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Fonte: Estadão

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