2011 – “Mulheres Inesperadas” – Pinacoteca de São Bernanrdo do Campo

Um flagrante das formas e figurações da produção artística de mulheres da região do Grande ABC: foram selecionadas e convidadas algumas das mais importantes artistas em atividade. O resultado é um flagrante, um instantâneo, sem a pretensão de ser abrangente. Inesperadas, essas mulheres, porque reunidas nesse registro instantâneo. Inesperadas, por que nada se deve esperar delas, principalmente o que se poderia denominar com rótulos como “arte feminina” ou “arte feminista”.

Se vemos seu trabalho despojados de expectativas, é possível distinguir algumas características comuns a boa parte das obras apresentadas, todas de criação recente. Por exemplo, o uso de materiais e técnicas  de trabalhos manuais (ou a eles relacionados) praticados tradicionalmente por mulheres, encontráveis nas obras de Cristina Suzuki, Andréia de Alcântara, Lourdes Sakotani e Gaby Braun.  De Lourdes Sakotani, encontramos o grafismo áspero de uma xilogravura aplicado sobre o tecido das formas sóbrias e delicadas de um kimono. Andréia de Alcântara revê (literalmente, ao espelho) nosso sincretismo religioso no feminino; as prendas artesanais bordadas num manto de santa, tanto vestem quanto desnudam o sagrado. Gaby Braun aplica estampa, carimbos e bordado sobre cortinas de tecido que velam e desvelam as esperanças, os enganos e a violência contra as mulheres. Cristina Suzuki expande o procedimento modular – baseado na repetição de padrões – da tradição da estamparia em tecido, para a arte gráfica digital de motivação fractal.

Um olhar antropológico subjaz aos trabalhos de Agda Carvalho e Carmen Novo. Agda compõe um painel de depoimentos em vídeo que cruzam os desejos, encontros/desencontros, realizações e sentidos nas histórias de vida de diferentes mulheres. Quatro fotos de Carmen Novo exemplificam o que se pode denominar antropologia da intimidade coletiva. Duas delas perscrutam as vivências impregnadas em objetos de estima. Outras duas, metalinguísticas, fazem de fotografias de fotografias realizadas com crianças um estudo sutil da formação das máscaras sociais.

Lourdes Sakotani, Bete Bovo e Edvânia Rego dirigem sua sensibilidade para a natureza exterior – para a vida vegetal. Nas cerâmicas com técnica mista de Edvânia, observamos a atenção minuciosa às formas vegetais e o desejo de virtualizá-las como formas plásticas/gráficas. Nas gravuras de Lourdes, as formas vegetais fragmentadas e fragilizadas fundem-se; raízes e galhos/hastes tornam-se grafismos ferindo nosso olhar desatento. Na árvore pintada na parede por Bete Bovo, a relação problematizada entre pintura e fotografia, interior e exterior, o recorte da arte e a realidade irredutível – questões recorrentes em sua produção.

Elementos dessa natureza vegetal também podem ser vistos nos trabalhos de Damara Bianconi, mas percebe-se que eles já foram manipulados pela ação humana e participam de um magma de formas e materiais que, embora os títulos das obras falem de ordem, parece exprimir a desordem inerente a um mundo em permanente e imprevisível mudança.

As obras reunidas nesta exposição transitam entre o olhar extrovertido para a natureza e o olhar interior para a vida humana e social, entre tornar objetiva a experiência do mundo e mergulhar nas imagens que construímos dentro de nós. Não devemos esperar nada destas artistas; antes, prestar atenção no que elas estão fazendo.

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